Se você chegou até aqui, já deve ter reparado que chamei o canto das minhas influências mais queridas de “Vozes que Falam na Minha Cabeça”. A ideia parece (e é) um pouco brincalhona, uma forma de quebrar o gelo e não me levar tão a sério. Mas, como toda boa brincadeira, ela carrega uma verdade profunda.
Todas as vozes que convidei para este conselho imaginário são reais, importantes e moldaram quem eu sou. E como todo conselho precisa de uma liderança, o meu tem um presidente. Não foi uma eleição difícil; na verdade, nunca houve outra opção. O presidente honorário, vitalício e inquestionável deste espaço é Hermann Hesse.
Mas por que ele? Por que um escritor alemão do século passado tem tanta influência na forma como um designer brasileiro do século XXI vê o mundo? A resposta é simples e, ao mesmo tempo, a coisa mais complexa que já experimentei: porque ele foi o primeiro a traduzir o meu próprio silêncio.
O Encontro que Mudou Tudo
Lembro-me exatamente de quando abri um livro de Hesse pela primeira vez. Não foi apenas uma leitura; foi uma colisão. Uma daquelas raras e preciosas experiências na vida em que você sente o chão se mover debaixo dos seus pés.
Antes desse encontro, eu tateava o mundo, cheio de sentimentos, dúvidas e uma percepção das coisas que muitas vezes eu não conseguia colocar em palavras. Havia uma sensação constante de ser um estrangeiro em minha própria pele, de não me encaixar totalmente nos moldes que a sociedade, a educação e a vida cotidiana pareciam impor. Eu via a vida de uma forma mais nuançada, mais complexa, cheia de luzes e sombras que eu não sabia nomear.
E então, li Hesse. E foi como se, pela primeira vez na vida, alguém tivesse acendido a luz de um quarto escuro que eu habitava há anos.
O Espelho na Palavra Escrita
Tudo o que eu lia em seus textos e livros — em Siddhartha, Demian, O Lobo da Estepe — parecia não apenas descrever sentimentos, mas descrever os meus sentimentos. A sensação foi avassaladora. Era como se ele tivesse entrado na minha cabeça, captado cada angústia sutil, cada busca inquieta, cada paradoxo da minha alma, e colocado tudo aquilo no papel com uma clareza e uma beleza que eu jamais imaginei possíveis.
Cada parágrafo era um espelho. Eu lia sobre a busca incessante por si mesmo em Siddhartha e pensava: “Sim, sou eu que estou nessa estrada, tentando entender o meu próprio caminho, sem aceitar dogmas prontos”. Eu lia sobre a dualidade entre o instinto e a razão, o sagrado e o profano em Demian, e uma onda de alívio me invadia: “Não estou louco por me sentir dividido dessa forma, por ver a beleza tanto na ordem quanto no caos”. E em O Lobo da Estepe, a sensação de ser um “outsider”, de habitar as margens da sociedade para poder observá-la melhor, fazia todo o sentido.
Hesse não me ensinou apenas filosofia ou literatura; ele me ensinou a me aceitar. Ele me mostrou que a minha sensibilidade não era um defeito, mas uma forma legítima e poderosa de experimentar a existência. Ele validou a minha busca por autenticidade, por um caminho que não fosse o mais fácil ou o mais trilhado, mas o meu.
Uma Jornada que Se Estende
O pensamento dele foi fundamental para a minha formação como pessoa. Suas palavras me acompanharam em momentos de solidão, de dúvida, de criação. Elas me deram a coragem de me arriscar na arte, no design, na escrita, sempre buscando a expressão mais honesta de mim mesmo.
Por tudo isso, Hesse é o presidente. Porque quando a fumaça dessa “Conversa Afora” se dissipar e o silêncio reinar, a voz dele continuará lá, ecoando. Não como uma ordem acadêmica ou uma lição de moral, mas como a voz de um velho e sábio amigo que, há muito tempo, me olhou nos olhos e disse, através das suas páginas: “Eu te vejo. Eu te entendo. Você não está sozinho nessa caminhada”.
E assim, a conversa continua. Com ele liderando o caminho.