O Conversa Afora é um espaço onde as vozes que habitam minha cabeça se encontram para prosear. E há uma voz que, quando surge, não pede licença: a de Neil Young. Em um momento específico na história do rock, essa voz não apenas falou, ela expressou o horror, o luto e a fúria de uma geração.

Foi dessa revolta que nasceu “Ohio”. E, para entender como tudo aconteceu, precisamos voltar para o mês de maio de 1970. O cenário não era uma fogueira tranquila com amigos, mas um campus universitário transformado em zona de guerra.

O Horror na Capa da Revista

A história de “Ohio” começa no dia 4 de maio de 1970, na Universidade de Kent State, no estado de Ohio. Estudantes protestavam pacificamente contra a expansão da Guerra do Vietnã para o Camboja, ordenada pelo presidente Richard Nixon. Em um momento de tensão brutal, membros da Guarda Nacional abriram fogo contra a multidão. Treze segundos de tiros. Quatro estudantes mortos. Nove feridos.

O choque foi nacional. E a tragédia chegou até Neil Young, que estava passando um tempo em uma cabana isolada na Califórnia.

Dias depois do massacre, David Crosby (outro membro fundamental do Conselho das Vozes na Minha Cabeça, é claro) apareceu na cabana com a edição mais recente da revista Life. Ele não disse nada. Apenas entregou a revista a Neil.

A capa trazia a fotografia icônica e devastadora de John Filo: a estudante Mary Ann Vecchio ajoelhada, gritando em agonia diante do corpo de Jeffrey Miller, um dos mortos.

O Grito Instantâneo

Crosby conta que a reação de Neil Young foi imediata e visceral. O silêncio da cabana foi rompido pela raiva e pelo luto. Young pegou seu violão, desapareceu por cerca de uma hora e, quando voltou, tinha a estrutura básica de “Ohio” pronta.

Ela não foi composta; ela foi expelida. Era um ato de jornalismo musical de urgência.

A letra era crua e não usava metáforas. Começava com o ataque direto e corajoso ao presidente:

“Tin soldiers and Nixon’s coming” “Soldadinhos de chumbo e Nixon está vindo”

E repetia o refrão como um mantra doloroso que transformava a estatística em memória martelada:

“Four dead in Ohio” “Quatro mortos em Ohio”

A Gravação e a Urgência

Crosby sabia que tinham algo histórico nas mãos. O grupo (Crosby, Stills, Nash & Young) correu para o estúdio Record Plant, em Los Angeles. Diz a lenda que a gravação foi feita em apenas alguns takes ao vivo, com a energia bruta do luto ainda palpável na sala. No final da gravação, David Crosby chorou compulsivamente no estúdio.

A urgência não parou por aí. A gravadora correu para lançar a música como single. Ela chegou às rádios FM em menos de três semanas após o massacre, em 21 de maio de 1970.

A música atropelou o hit atual do grupo (“Teach Your Children”), que estava subindo nas paradas. Eles não se importaram. O momento pedia um grito, não uma lição. E “Ohio” se tornou o hino de protesto mais contundente da era do Vietnã.

Por Que “Ohio” Continua a Ecoar?

“Ohio” é uma prova do poder da música como registro histórico e emocional. Ela capta o momento exato em que a inocência de uma geração foi baleada em seu próprio solo.

Para mim, essa música é uma das “Vozes” mais importantes porque ela me ensina sobre a honestidade na arte. Ela me mostra que, às vezes, a melhor forma de falar sobre um assunto complexo (política, sociologia, humanismo) não é através de teses acadêmicas, mas através da expressão pura e visceral de como aquele evento afeta nossa humanidade.

“Ohio” é o som da história sangrando em tempo real. E, infelizmente, enquanto o poder abusar de sua força contra cidadãos desarmados, seu grito continuará a ser necessário.

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